Segunda-feira


Segunda-feira 

Paulo Victor Fanaia Teixeira

 

Estava cansado.  Levara ordens e reclamações de insatisfação do seu chefe, Valadares, durante todo o dia. Que ânsia ele tinha de mandá-lo à merda! Um dia Valadares lhe mandou trabalhar direito e ameaçou mandá-lo para a rua , na frente de todos. Ah, se pudesse, talvez lhe desse um soco na cara que lhe quebrasse o nariz e , obviamente demitido, fosse embora com honras entre os ex colegas de trabalho e resguardando uma fresta de sangue do seu chefe na blusa.

Mas não pode.

Aguenta  firme, são só alguns meses até arranjar algum emprego melhor , logo sairá um novo concurso.

Quase terminando o expediente seu subchefe do seu setor no escritório lhe joga na mesa uma grande pasta. “Isso aqui tá uma bosta !“ Faz-se o silêncio na sala. Era o relatório que havia acabado de finalizar. “ Isso aqui não ta bom , faça tudo novamente com um argumento verdadeiro. Você não é tão incompetente assim , ou é ?” Todos se calaram, olhando assustados para a cara dele, que branco, pegou a pasta e começou analisar papel por papel. Na raiva daquele instante faria Almeida engolir todo aquele relatório! Literalmente, folha por folha.

Saindo meia hora depois, fim de expediente, afrouxa a blusa, entra no carro, bota as mãos no volante, respira fundo.  Um papelzinho no vidro. Cansado levanta , pega o papel preso nos pára-brisas. Uma multa por estacionar em local indevido. Sua frio , se dirige ao guarda que ainda se encontra do outro lado da praça. “Você não pode fazer isso “ – o guarda o olha – “ … essa multa”.  “Ah, sim. Local indevido senhor.” – responde o guarda com uma sínica calma e uma leve postura de superioridade. “Não, estaciono ali todos os dias”. “Mas agora é proibido senhor“.

 “Mas você não vai fazer isso” – diz em voz baixa. “O quê ?“- o policial não entende. “Cobrar essa multa, jogar no sistema.” – ele diz em tom de desafio.  “Ah , vou sim senhor. É uma multa legítima , local indevido. “ A conversa termina no zero a zero.

 Que vontade teve de dar uma ‘expressa ordem’ de cancelamento da multa, ao guarda, e na cara dele rasgar o papel em três pequenos pedaços e jogar no esgoto.  

Chega em casa, finalmente , às seis da tarde. A mulher em casa, seus dois filhos discutindo.  Não teve tempo nem coragem de se expressar, desafogar sua raiva, contar seus desaforos para sua esposa. Mas não havia tempo para esse diálogo. 

“O João ta falando de uma festinha com os amigos amanhã lá naquele Buffet da avenida” – sua mulher propõe em voz alta, seu filho ouve quietamente no canto – “ …  é  cinco e quinze , depois da aulas deles , você vai ter que sair antes, do serviço”.  Ele responde , diz que não pode sair antes do serviço. 

“Dá um jeito , agente ainda tem que comprar um presente , vamos usar o cartão que ainda resta um crédito” .  Gastar o cartão , gastar o cartão,começa a suar frio novamente , se lembra do guarda lhe impedindo de poder dialogar , negociar. Não pode , são ordens , são ordens!  

“ Não podemos fazer isso”  – ele fala com autoridade para sua família e antes que ela dissesse algo seu filho exclama  “ Mas pai ! Preciso levar um presente , todos os meninos vão levar um presente ,  eu não quero que eles riam de mim , se não se …”

“Mas você não vai fazer isso” – diz olhando fixamente pro vazio e suando no canto do rosto. Fica um clima ruim. Ele toma em si a expressa ordem dada e conclui. “Não vai levar presente e ponto final”.  Ah, se os guardas de trânsito fossem como nossos filhos.

O Clima se fez assim durante a noite. Ele na sala vendo TV com sua esposa, era hora do jornal. Os filhos brincando no quarto.  

No jantar, sopa de legumes e carne, o silêncio permanece, João visivelmente emburricado e ele tentando contornar a situação com um simpático silencio, e olhares de satisfação pela sopa para sua mulher.  

Poderia se dizer que tudo estava ligeiramente bem mas …   “Não vou comer, isso aqui ta uma bosta!” seu filho anuncia.

Ele para por instantes, se lembra de toda a cena desta tarde, no lugar de João ele só enxergava Almeida lhe olhando severamente.  Ele foi se tomando pelo mesmo espírito que estava no escritório. 

“Você vai comer isso!“.  “Não vou !“ – seu filho responde.

“Vai sim, sua mãe que fez a sopa, ta uma delicia, ora, qual é, eu gasto horas pra fazer esse relatório pra você dizer que ta uma bosta ?! Engole isso” – disse num tom de voz crescente.

E força João a algumas colheradas mal mastigadas da sopa , e a couve , folha por folha.  

Alguns instantes depois em um súbito lance de querer parecer adulto e ainda na ânsia do momento João retruca: “Tivesse feito a sopa direito ! ”

“Ah, sai já da mesa! “ – ele repreende seu filho e mesmo sentado lhe dá uns tapas. João sai chorando. O som da porta batendo ao longe , das colheres riscando no prato. Silêncio na mesa. O clima muda, o jantar continua. Por essa Valadares não esperava!  

 

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Sobre UnderlinePV

"Sei o que faço, Amo o que faço e faço bem" Paulo Victor Fanaia é Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto-MG
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Uma resposta para Segunda-feira

  1. Iria marilene da Silva Anunciação disse:

    Gostei do seu Blog. Parabéns, Paulo Victor! A sua dedicação às letras e à comunicação, lhe proporcionará grandes sucessos. Paulo Victor, a poesia do meu ponto de vista é a arte mais bela, ela nos transporta às dimensões imensuráveis, nela podemos expressar sem medo de errar os nosos anseios, nossas limitações, a nossa historia, com ela encontramos com o Deus que existe em cada um de nós.

    Curtir

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