Monteiro Lobato, racista? – Entrevista com Ferreira Gullar e João Ubaldo Ribeiro


Hoje, seis décadas após sua morte, Monteiro Lobato, um dos mais influentes escritores brasileiros do século XX, está sendo acusado de racismo. Esta discussão partiu de Antonio Gomes da Costa Neto, servidor da Secretaria de Educação do Distrito Federal e foi acatada pela Relatora Nilma Lino Gomes, do Conselho Nacional de Educação (CNE). Que agora sugere a exclusão dos livros de Lobato em escolas públicas. Conversei sobre isso com os escritores Ferreira Gullar e João Ubaldo Ribeiro.

A questão do racismo de Monteiro Lobato volta à tona com a denúncia de Antonio Gomes Neto, dirigida à Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, com base no livro “Caçado de Pedrinho” (1933), em falas como:

“Mentira de Narizinho! Essa negra não é fada nenhuma, nem nunca foi branca. Nasceu preta e ainda mais preta há de morrer”.

“Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão”.

“É guerra, e guerra das boas. Não vai escapar ninguém – nem Tia Nastácia, que tem carne negra”.

Segundo a denúncia, o modo como a personagem Tia Nastácia é tratada nos livros da série “Sitio do Pica-pau Amarelo” não só revelariam como fomentariam uma posição preconceituosa e racista, o que seria nocivo aos leitores infantis.

O caso passou pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), órgão ligado ao Ministério da Educação, em nome da Sra. Nilma Lino Gomes, professora da UFMG, que redigiu seu parecer, aprovado com unanimidade pela Câmara de Educação Básica do CNE.

Segundo a Secretaria de Alfabetização e Diversidade do MEC a obra só deveria de ser usada “quando o professor tiver compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil”.

Para todo esse processo entrar em vigor, é necessária ainda a assinatura do Ministro da Educação, Fernando Haddad. Se homologado, o Ministério pode retirar da lista do PNBE (Programa Nacional de Biblioteca na Escola) os livros categorizados como racistas. Ou então, ainda que permitida a disponibilização, poderão vir com uma nota governamental reafirmando uma discussão racial necessária para acompanhamento da leitura da obra.

Conversamos com dois dos maiores expoentes da literatura brasileira contemporânea a respeito desse debate:

Para Ferreira Gullar essa discussão não tem sentido. “Isso é idiotice de quem fala que isso é preconceito, tem que acabar com isso, ninguém mais pode falar a palavra negro agora que é considerado crime e preconceito. Isso é uma bobagem.” Ele ainda critica as fundações de cunho racial. “Isto ajuda a fomentar o preconceito e a luta racial no Brasil. A pessoa que cria um órgão desse não tem o que fazer. Fundações como essa é criada para o que? Para se estimular a cultura negra? A cultura brasileira é negra! Não tem que se dividir. Criar instituições de raça no Brasil”. E cita escritores negros. “O Maior escritor do Brasil é um cara que se chama Machado de Assis, é negro, é um gênio, bem como Cruz e Souza, outro grande escritor brasileiro, é negro”. Conclui: “O racismo também está nessas instituições, o racismo está no governo.”

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João Ubaldo Ribeiro não vê motivos para que haja mudanças nas obras de Lobato. “Não se pode proibir um livro pelo possível efeito que ele venha a ter em algum leitor. Se for assim, todo livro é perigoso”. O escritor também é contra intervenções em obras literárias. “Como é que vai chegar ao ponto em que as pessoas vão ter que ler dirigidamente? Livro com bula? Onde se lê tal, entenda tal…”. E defende o autor. “Além de tudo se trata de um clássico da literatura brasileira, Lobato é um gênio extraordinário. Essa discussão não tem razão, é bobagem, no entanto o Conselho de Educação acatou, pode ser que o ministro não acate, mas a comissão acatou, acha que está certa, o que pra mim é alarmante”.

Ferreira Gullar e João Ubaldo Ribeiro são convidados deste Fórum das Letras, que neste ano resgata o tema África, contanto com a presença de diversos escritores moçambicanos. O evento que vai dos dias 10 a 15 de Novembro, é um evento promovido pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e é realizado anualmente em Ouro Preto-MG.

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Sobre UnderlinePV

"Sei o que faço, Amo o que faço e faço bem" Paulo Victor Fanaia é Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto-MG
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7 respostas para Monteiro Lobato, racista? – Entrevista com Ferreira Gullar e João Ubaldo Ribeiro

  1. José Geraldo disse:

    O antigo truque índio de criar problemas artificialmente para não ter de enfrentar os que surgem espontaneamente.

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  2. Marina Ferreira disse:

    Machado de Assis, que era negro, escreveu no seu livro Memórias Póstumas de Brás Cubas:

    “Capítulo XXXI
    A borboleta preta
    No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da véspera, e ri-me; entrei logo a pensar na filha de Dona Eusébia, no susto que tivera, e na dignidade que, apesar dele, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite. O gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um certo ar escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo logar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.

    Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.

    — Também por que diabo não era ela azul? disse eu comigo.

    E esta reflexão, — uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas,– me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela, entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: «Este é provavelmente o inventor das borboletas». A idéa subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu creador era beijá-lo na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia.

    Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dous palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última idéa restituiu-me a consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham já as próvidas formigas… Não, volto à primeira idéa; creio que para ela era melhor ter nascido azul. ”

    Acredito que é fato que um personagem racista é muito diferente de um escritor racista.
    O personagem é construtivo, nos faz pensar e criticar, o personagem pode ser a própria crítica desse autor, que era negro. Não é para mim possível saber se Machado de Assis era racista ou não, se gostava de ser negro, se se orgulhava de ser negro ou não. Na realidade, de Machado pouco conheço, mas esse trecho do seu livro, esse trecho racista de seu livro foi muito construtivo para mim.
    Me faz refletir como o racismo era e é presente na sociedade, e não faz sentido realmente fingir que estamos em outro momento, que devemos esconder esses livros por medo de que a sociedade brasileira volte a ter atitudes racistas. Não, a sociedade brasileira tem pensamentos, ideias, ações racistas e escritores como Machado de Assis e Monteiro Lobato são ótimos para percebermos no que precisamos mudar.
    A boneca Emília era racista, mas eu me lembro, eu lia o Sítio do Pica Pau Amarelo, ela era remendada o tempo todo e estava sempre a dizer bobagens, os outros personagens reclamavam muito de seus comentários.

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  3. Carlos jr. disse:

    O Gullar foi rígido… Vejo necessária a identidade negra sim. Pois vivemos em um país racista.
    Agora é complicado, vejo inúmeras pessoas falando “ele é inteligente, e é preto viu?”. Esse “preto” aí da frase tem teor negativo ou não?

    Obs.: Marina Ferreira,

    A borboleta preta, a que se referiu, acredito que seja do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, e n tem cunho racial algum.
    apenas simbólico… borboleta preta: azar etc. assim como o gato preto…

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  4. Wesley disse:

    Tirar uma obra que é considerada racista é estupidez, tiremos então o AT da Bíblia, pois o livro de Levítico fala em pureza o tempo todo, tiremos então as obras de Marx, Engels, Lênisn das bibliotecas, tiremos então as obras de um Maupassant, Victor Hugo… Por que essa questão não acaba de uma vez? Por que as pessoas não podem entender que diferenças causam mesmo diferenças de pensamento? Não estou fazendo apologia ao racismo, um assunto que nem estudamos no Brasil, apenas falamos, mas se há diferenças, obviamente haverá comentários jocosos… Uma bobagem e uma estupidez, isso mostra para onde nossos tempos estão indo ou retrocendo.

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  5. Giovane Lima da Silva disse:

    As obras de monteiro ,tem uma grande comtribuição, na destruição da imagem do povo negro.

    Devolva a perna do Saci Lobato.

    Giovanesobrevivente
    poeta
    Militante do Movimento Negro Unificado MNU-BA

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  6. Anônimo disse:

    É, na verdade eu acho que começaram a reinterpretar as obras de Monteiro Lobato depois que foram acessadas as cartas que ele trocou com outros escritores brasileiros.Cartas assumidamente eugênicas. Na verdade, reinterpretar não, mas levar a sério as interpretações que educadores já vinham fazendo de sua obra. Eu também acho que o Ferreira Gullar tenha sido um pouco bronco. É necessária a identidade negra. Afinal, o que a cultura de massa faz com a identidade negra se ela não estiver cuidada por militantes? Vide o carnaval: Loiras, da nossa querida mídia como rainhas de bateria, enquanto a maioria negra fica com a ala das baianas. Essa observação foi feita pelo Abdias Nascimento…e é séria. Identidade cultural sim. Luta contra o racismo sim. Claro, não acho que seja necessário tirar os livros de Lobato de circulação, mas que esteja bem claro o que a obra significa e que seja valorizado literatura que expresse a vontade da população negra, mesmo que seus autores não tenham o carimbo de Monteiros Lobatos da vida.

    P.V, Parabéns pelo blog!

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