Dogville , o ensaio além da obra


Resenha (contém spoilers)

A obra “Dogville” (Dinamarca / Suécia / Noruega / Finlândia / Reino Unido / França / Alemanha / Países Baixos, 2003) é fruto do polêmico diretor e persona non grata em Cannes, Lars Von Trier. O que significa dizer que o longa segue (embora burlando algumas regras) o “Dogma 95”, cujo manifesto o próprio assina, anos antes. Dogville é inteiramente filmado em ambiente teatral, não há gastos com cenário, efeitos especiais ou musica. Linhas retas em giz desenham a cidade americana esquecida pelo tempo, não há mais de um cenário. Nada é por acaso. A ausência de paredes permite ao expectador o luxo ao incomodo da ausência de intimidade. A cidade onde todos vêem, todos sabem e as fronteiras entre o público e o privado se quebram na trama.

 

Com requintes naturalistas, Dogville cospe a própria natureza humana com uma delicadeza que “irrita” o público do inicio ao fim. A arrogância e o cinismo dão outro rumo à obra, que até o primeiro capitulo soa boba, deformando a imagem da cidade pouco a pouco. Quase não há choque nessa mudança, o absurdo vai se materializando ao longo dos 178 minutos da obra, que só um bom diretor consegue executar, como quem devolve ao rio um peixe segurando-o até que se acostume à água.

Grace (personagem principal interpretada por Nicole Kidman) é uma mulher que foge de uma vida social favorável (filha de um líder gangster) para exilar-se em Dogville. Receando a estrangeira, é defendida, apenas, por Tom (Paul Bettany), filósofo (cuja critica subjetiva de Trier comentarei logo), que consegue convencer a todos que Grace deveria, então, prestar serviços espontâneos ao povo, até que os convença de sua idoneidade.

Tudo parece ir muito bem enquanto Dogville sustenta sua aparência para o público e para Grace.

Aos poucos, os serviços se tornam obrigatórios, com horários marcados. Um cartaz procurando-a como sendo criminosa é a virada que desequilibra a relação povo – estrangeira. Ninguém, de fato, acreditou no anúncio policial, mas foi o que bastou para Grace morar nas mãos da população. Ela aceita tudo, em silêncio, desde que resguardando sua “não presença” no local. É estuprada por Chuck, cultor de maçãs, como forma de pagamento. O cenário então vai se distanciando do estupro. A câmera se utiliza de grua (que é condenado pelo Dogma 95). O ato do pai de família vai se mesclando à cidade, pela ausência de paredes. Crianças brincam, mulheres conversam e senhores andam pelas ruas enquanto, em pleno silêncio, Grace é violentada. Lars Von Trier não permite ao expectador, risadas, frente ao absurdo da cena. O silêncio é marcante, constrangedor. O público se abdica de proferir, se quer, críticas, nesse momento. Somos convidados forçados a consentir-se com o ato. É o silêncio de quem vê e evita assumir.

Os abusos se tornam corriqueiros. Chegam ao ponto em que a personagem é condenada a usar pesos de aço prendendo-a por correntes no pescoço, para evitar sua fuga, com um sininho anunciando seus movimentos. É estuprada por todos os homens da cidade, enquanto crianças balançam o sino da igreja sempre que o ato ocorre, brincando com a condição de Grace.

Thomas Edson Jr. (Tom), é a figura menos compreensível da obra. Filósofo, que pretende escrever um livro e não o começa nunca, é o porta-voz do discurso da cidade, convocando os cidadãos às suas palestras sobre moral. Evoca a retórica para justificar todos os atos da população, aquele que usa do discurso para confundir o expectador de suas próprias intenções. Protege Grace, permitindo, no entanto, a violência à que ela se submete. Em momento algum vai contra a ordem pública. Tom é a essência da coragem e da covardia. Na verdade, vai além. É o poder fazer e não poder, que se estabelece na tentativa de unir sua imagem na cidade à sua relação com Grace, que configura a hipocrisia de seu personagem. É a própria mãe que permite a violência sexual da filha pelo  pai, para evitar a fragmentação da família ou o amigo que agride outro para ser aceito no grupo, lubrificados pela complexa retórica de argumentos construídos, e dispostos, a favor da manutenção do sistema. É a própria ONU justificando as invasões americanas e eliminação de islâmicos (seja civis ou militares). Permitidos na vastidão do discurso capaz de transformar verdades em mentiras. Moldar, remodelar, criar anjos e demônios.

Toda a confiança que Grace havia lapidado com a cidade, simbolizado pelos bonecos de porcelana que ganhara como reconhecimento, se quebra. Vera, esposa de Chuck, consternada pela traição continua de seu marido, entra no quarto da garota e despedaça, um por um, seus bonecos. No momento em que toda a tentativa de argumento se quebra, Grace chora, pela primeira vez em sua vida.

Finalmente o filme chega ao ponto em que eu mais admirei a proposta da obra. Quando o jogo vira e a posição social da estrangeira é apresentada. Dois conceitos fantásticos são levantados e cruzados no texto: a arrogância e a perspectiva. Para que eu fale daquele, é necessário primeiro analisar este. No entanto, a noção de perspectiva vai além do cenário, está no próprio público à que mesclarei, por fim, a ultima metáfora que irei estabelecer.

O expectador é um dos tubos de ensaio mais requisitados na obra, sem, no entanto, conhecimento de grande parte dele. Nós mesmos somos discursos de “Dogville”, pela nossa reação ao longo do filme e em seu desfecho.

Grace é descoberta por seu pai, Tom a entrega finalmente, a fim de evitar maiores transtornos à cidade e, quem sabe, lucrar com o ato. Ele liga para o telefone que o gangster o entregou se caso encontrasse a fugitiva pelas redondezas.

“Nossa” injuriada personagem se revela dona de um poder insubstanciável. Um carro de luxo, antigo, e muitos homens armados entram em cena para seu resgate. É quando Grace vislumbra o poder de concluir o filme.

O público (e muitos resenhistas) segue a ótica que Von Trier justamente crítica. Quando todo o ensaio se revela em raciocínio paralelo – público e filme. Há poucas opções: tentar, Grace, se entender com a cidade, tentar “salvar” a cidade do “caos moral” ou, simplesmente, elimina-la. É quando se brinca com o termo “Arrogância”, de modo que me lembrou “Os miseráveis” de Victor Hugo.

Para Grace, ainda tomada de piedade e ciente do seu poder de desfecho, tenta convencer seu pai de que deveria aceitar a violência a que se submeteu durante sua estadia no condado. Como se eles fizessem o máximo, dentro de suas limitações, para manter-se na sociedade. Não tendo a culpa se, por ventura, estuprar lhes fosse “aceitável” e que a hipocrisia saltasse aos olhos. Quando ela, agora no papel discursivo de muitos intelectuais (“em nome da liberdade”) que defendem o isolamento de povos, dito, “diferentes”, a fim de que seja melhor evitar a comunicação e que a ignorância a respeito da cultura alheia valha a paz que se estabelece. É, no entanto, considerada arrogante. Seu pai argumenta que Grace estava se botando, simplesmente, como acima deles, mais humana, mais consciente, e que sua piedade seria uma afronta ao julgamento que eles, na qualidade de humanos, mereciam.

Não houve opção intermediária, quando Grace se desloca para a ideologia de seu pai e de parte do público exaltado: A justiça deveria de ser feita, e com armas, pois todos os cidadãos de Dogville tinham seus crimes muito bem catalogados pela vítima, e mereciam um julgamento à altura de sua pequenez.

Não há deslocamento de perspectiva. E essa é a crítica fundamental que deve ser feita, caso o expectador queira entender, de fato, a obra. Levados pela emoção, grande parte do público não abre mão de sua própria perspectiva, isto é, seus conceitos de Certo x Errado, Absolvição X Punição, Cultural X Absurdo (estranhamento).

Talvez fosse melhor para Dogville se ela tentasse o dialogo, ainda que coagidos por armas, e promovesse uma reflexão. Seria ideal demais. Talvez fosse melhor para o Mundo se Dogville, simplesmente, acabasse. É a decisão que o público pede. O julgamento final. Somos nós mesmos concordando com Barack Obama quando diz, “Fizemos justiça”, sobre o assassinato de Osama Bin Laden. Somos nós vibrando quando o espetáculo de exposição de força nazista executa a “Solução Final” aos judeus. Somos nós e o massacre Sérvio aos bósnios. Somos nós dizendo: “Seria melhor que uma bomba explodisse e matassem esses árabes de uma vez”, ou “que destruíssem as favelas do Rio” *

O que se sucede é o reflexo do Imperialismo institucional, sintomático, personificado em Grace. Não é a toa que o diretor seja odiado nos Estados Unidos. Grace entra em um dilema que, infelizmente, o público com quem assisti não compartilhou dele. Não ocorre o silêncio que houve no primeiro estupro. Que selaria com “chave de ouro” a “atuação” do público (prova material do discurso imperialista perfeitamente assimilado). Todos vibram, gritam, riem e comemoram quando Grace, por fim, pede para abrir o capô do carro e manda aos capatazes que atirem e ateiem fogo em Dogville. É o perfeito “ver e não querer ver” (tal como a população e os estupros, no filme) agora, quando ouço comentários como “Para quê matar até mesmo o bebê?”. Quando as risadas vão se acabando em sorrisos amarelos com o choque da cena trash, embora realista, dos assassinatos as crianças, cujas cenas, Von Trier promove, quebrando, novamente, mas uma regra de seu Dogma 95. Muito justificavelmente.

Grace elimina Tom pessoalmente, com uma pistola. Quando a câmera mostra o fim do cenário de Godville.

Não há santos, coitados, ou demônios. Não há justiça. A solução de Grace é a mesma que Vera tentara. Isto é, tentar eliminar a estrangeira ao invés de buscar solucionar a infidelidade em seu casamento, em prol das aparências. É eliminar aquilo que nos incomoda visualmente, e não ver o que não vemos.

O cachorro “fica”, aquele que realmente tinha motivos para odiar Grace, (por roubar seu osso), sobrevive. O único que tivesse a sua animalidade justificada. Se tridimensionaliza, tranformando-se do giz para a carne. O ato consumado. O homem animal, agora, enfim, vivo, saindo do discurso para a ação. Teria campo, infelizmente, em qualquer canto do mundo real, para se sustentar. Encontraria perspectivas que o legitimasse.

                                                                                            Paulo Victor Fanaia Teixeira

* Obviamente que invoco o discurso do senso comum para fins de ironia. Frases que eu já ouvi, conscientemente postas entre aspas, para designar o campo em que ela entra em paralelo com a crítica que o filme propõe, para expressar, subjetivamente, o discurso contrário à mesma.
** Nota de rodapé feita a fim de se evitar interpretações precipitadas.
*** Imagens retiradas do google pesquisa imagens , dogville.
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Sobre UnderlinePV

"Sei o que faço, Amo o que faço e faço bem" Paulo Victor Fanaia é Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto-MG
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