No seio da inconfidência: insurreição ou revolução?


“A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”. Eduardo Galeano

            No fim do século XVIII a então capital brasileira, a cidade de Vila Rica em Minas Gerais, foi berço da conspiração libertária dos brasileiros, aos moldes da revolução americana de poucos anos antes, o movimento foi desmantelado pela coroa portuguesa e seus doze lideres condenados por traição, o símbolo maior destes, Tiradentes, é estátua da praça que recebe seu nome na atual Ouro Preto.

            Era um sentimento, definitivamente, incomum. Estávamos em pouco menos de 800 estudantes reunidos na praça símbolo de uma luta libertária de três séculos atrás. A Universidade Federal de Ouro Preto decreta greve dos professores no dia 15 de Maio de 2012, reivindicando, além de um plano de carreira justo, melhores condições do ensino no Brasil.

            A filósofa política, judia e um dos maiores expoentes da intelectualidade do século XX, Hannah Arendt, lança uma obra chamada “Sobre a Revolução”, que se trata de uma leitura fenomenológica do ato revolucionário, suas características e consequências. Dentro da perspectiva da “revolução arendtiana”, ou seja, uma noção pós-marxismo, podemos compreender e vislumbrar que uma revolução só efetivamente ocorre depois de dois processos muito claros: a libertação e o exercício da liberdade.

            Uma liberdade não se efetiva sem que antes tenha havido, dentro de um processo pré-revolucionário, uma libertação. E, portanto, uma revolução só é o que é, quando dá garantias de mudanças nas condições sociais e liberdade para que elas ocorram, e vice-versa, quando melhores condições sociais permitem aos cidadãos o exercício da “liberdade sartreana”, existencialista, isto é, que nos permita refletir sobre a condição da liberdade como condição natural e condenação metafísica, e não como fruto de um processo que está no porvir.

            Lembro-me então, de uma colega em assembleia nos dizendo que nosso ato nos dias anteriores fora uma “baderna” provocada por estudantes “brincando de revolucionários”, irônico, pois, Hannah Arendt concordaria com ela, de certa forma, porém, ela expressava com palavras erradas, que na verdade representavam discursos simplórios. Arendt talvez a corrigiria dizendo que nós estávamos “libertando”, “exercitando uma pré-revolução”.

            Alguns professores ainda se reuniam com seus alunos em minha cidade – Mariana – onde se situa o campus de Ciências Sociais Aplicadas da UFOP. Mas nós não estávamos lá, havíamos rompido com as amarras dos contratos simbólicos da ordem tradicional das relações professor-aluno e fomos de ônibus e carro em grandes grupos para Ouro Preto, ocupar o DEGEO (Departamento de Geologia). A princípio nossa entrara fora barrada, mas a gritos de ordem fomos ocupando nosso espaço no auditório, onde professores deflagravam greve, com ampla maioria dos votos. Havia eles nos dado o exemplo de se romper com as amarras da relação contratual injusta e exploradora da ordem do capital. E eles não foram os únicos, naquele dia, já eram quase 32 universidades em greve.

            À noite seguimos para Mariana, onde realizamos uma assembleia com 200 estudantes em nosso Instituto, onde acomoda os cursos de Jornalismo, Serviço Social, Economia e Administração. Rompemos com o silêncio daquele prédio dando informações e explicando aos alunos a necessidade do levante dos professores e da luta pela melhoria na educação. Conseguimos por ampla maioria dos votos, sermos favoráveis à greve.

             No dia seguinte, nos libertamos novamente das amarras do silêncio promovendo uma conturbada assembleia estudantil no mesmo auditório do DEGEO em Ouro Preto, e lá fomos nós de novo.

            No outro dia fora sensacional, éramos nós, finalmente lá, na Praça Tiradentes em centenas de estudantes e professores. Dando gritos de ordem, rompendo completamente com o silêncio de Ouro Preto. Libertando-nos das amarras simbólicas do poder constituído pelo cargo presidencial, cobrando 10% do PIB para a educação, à Dilma Rousseff.

            De lá seguimos para a Reitoria, onde fizemos uma simbólica ocupação dos cômodos (incluindo a cozinha e banheiros) de nosso prédio. Libertávamos novamente do distanciamento que existe entre estudantes e Ministério da Educação e Planejamento, onde conversávamos com o reitor sobre nossa luta, com narizes de palhaço. Sensacional foi quando abri a janela de sua sala no segundo andar e lá embaixo havia um mar de estudantes gritando palavras de ordem. Jovens na luta.

            Não suficiente, no fim do dia, saímos da reitoria para voltar à Mariana quando soubemos que alguns professores tentavam furar a greve dando aula nas salas.     Duas caixas de foguetes não foram suficientes, havia seis pessoas fazendo batuque com latas e instrumentos de percussão artesanal. “Ô professor, pelega não! Você sabe que a greve é solução!”, gritávamos, o que fizeram eles abandonarem as salas, por vergonha ou por raiva, e alguns chamarem a Polícia Militar. Rompermos e nos libertamos de duas ordens. Da imposição de professores em tentar fraudar a greve e da polícia tentando exercer o abuso de poder, quando eles foram lembrados que não podiam entrar com toda pompa em nosso instituto, com uma simples frase: “Opa, dois passos pra trás, aqui é a área federal”.

            E, por fim, no outro dia exercitamos nosso poder de ordem e liberdade, realizando assembleia geral do Instituto e deflagrando a greve estudantil do curso de Jornalismo.

            Mas, fora tudo isso, revolução? Definitivamente, não. Hannah Arendt irá nos lembrar de que tudo isso fora o primeiro passo da revolução. A “libertação”. Sem a libertação, isto é, sem a abertura das porteiras, sem a libertação das amarras, sem o escancaramento das portas, não se consegue nada, foi o que ensinou a revolução americana, tanto a nós, 2012, quanto aos inconfidentes em 1789.

            “Apenas onde existe esse páthos de novidade e onde a novidade está ligada à ideia de liberdade é que podemos falar em revolução”, diz Arendt na página 63 e John Adams na página anterior, “chamados de modo inesperado e compelidos sem inclinação prévia” descobriram que “é a ação, e não o descanso, que constitui nosso prazer”. Pronto! Eles haviam explicado o que era aquela sensação maravilhosa que sentia eu e meus amigos na Praça Tiradentes e na reitoria e do porque eu amar aquele humilde instituto de Ciências Sociais Aplicadas da UFOP, que caia aos pedaços ao invés de uma universidade consagrada e com ar pomposo, como um bispo velho e rabugento.

            Mas então, vamos à liberdade que a libertação já é nossa? Não. Ainda não conquistamos a libertação, e isso deve estar bem claro em nossas mentes. A esperada libertação, o principio da revolução, só será efetivada quando conseguirmos deflagrar a greve estudantil e dos servidores. Só então teremos nos Libertado por completo de todas as amarras que nos impediam do avanço na revolução da área educacional, só quando tiver-nos por completo libertado de nossa in-consciência de luta e tiverem abertas nossas salas, para que os ventos da revolução soprem, é que estaremos abertos, de coração, às mudanças.

            Caso nossa luta termine apenas na greve dos professores e os estudantes não deflagrem a sua, própria, não teremos feito revolução. Teremos feito insurreição. Um levante temporário. Só quando conseguirmos uma greve de professores, de estudantes e de servidores que a educação será nossa e conseguiremos o almejado 10% do PIB (para aqueles que dizem que 10% são demais, peço que reflitam sobre os 47% que se destinam aos banqueiros do Brasil).

            Já somos aproximadamente 42 universidades federais em greve. Mas não se iludam, a revolução ainda não começou, estamos em processo de libertação. E é necessário que os estudantes, aqueles a quem as responsabilidades jurídicas ainda pesam menos sobre as costas, o dever de se levantar e agitar as massas em luta. Esse é o momento da greve estudantil. Quando todos nós estivermos em luta, livres e com reivindicações claras no papel, a educação do Brasil será nossa. Façamos a revolução que sonhamos! E para aqueles que acham que a revolução é utopia, peço que durmam, pois a utopia está viva!

Paulo Victor Fanaia Teixeira

Graduando em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto-MG, natural de Cuiabá–MT, membro do comando de greve dos estudantes do ICSA – UFOP.

Bibliografia:

ARENDT, Hannah, 1906-1975.

Sobre a revolução/ Hannah Arendt; tradução Denise Bottmann.

– São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

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"Sei o que faço, Amo o que faço e faço bem" Paulo Victor Fanaia é Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto-MG
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