Dossiê: Quanto Vale Mariana? – Parte 1


por Paulo Victor  Fanaia Teixeira

Muito além do verde e amarelo:

A empresa Vale S.A, reconhecida esse ano, pela “Public Eye Awards”, na Suíça, como a pior empresa do mundo, está presente de norte a sul do Brasil e em outros 37 países, levando uma mensagem de progresso aliado à responsabilidade social e ambiental. Por ser “preocupada com o desenvolvimento das comunidades com as quais se relaciona”, e por ser “a maior mineradora diversificada das Américas […] dispensa apresentações”, afirma José Manuel de Aguiar Martins, Diretor-geral do SENAI em 2005. A empresa se norteia por valores como “ética, transparência, comprometimento, coresponsabilidade, accountability (capacidade de prestar contas e de assumir a responsabilidade sobre seus atos e uso de recursos) e respeito à diversidade”, afirma em seu portal. A Vale está presente em Mariana-MG e Ouro Preto-MG em diversos investimentos e parcerias como o “Trem da Vale”, o “Vale dos Contos”, além de projetos de “arte, treinamento, informação e formação” promovendo “integração sociocultural”, afirma o livro “Elo entre Cultura e Negócios”, do SESI FIEMG, de 2012. Mas como pode uma empresa que tão presente e com tal nível de excelência ser considera a pior do mundo? O que está por trás da maior empresa privada do país?

A Vale emprega hoje, somente no Brasil, 42 mil pessoas. E caso você não seja um diretor executivo, que recebe anualmente a quantia de R$ 3 milhões, terá salários que variam em torno de R$ 1.400, sendo necessários, portanto, 800 anos para que tais valores se equiparem.  Há mais de 15 anos a Vale vem mantendo esse custo médio de funcionários, que não ultrapassa os 4% do faturamento da empresa. Isso significa que em apenas 4 horas de serviço, no inicio do mês, o trabalhador da Vale já paga seu salário, seus encargos sociais e seu PLR. Às demais quatro horas e 21 dias, é para mais valia.

O reconhecimento da Vale como  “ pior empresa do mundo ”:
http://exame.abril.com.br/meio-ambiente-e-energia/noticias/vale-leva-titulo-de-pior-empresa-do-mundo
O que é PLR: http://www.sindmetalgo.com.br/s/ultimas/saiba-o-que-e-plr-ou-ppr
O que é Mais Valia: http://www.mundoeducacao.com.br/geografia/maisvalia.htm
Dados sobre Valério Vieira: http://achecandidatos.com.br/mg/mariana/valerio-vieira.html

“A relação com os trabalhadores é extremamente autoritária e agressiva, dirigida sobre forte pressão. Tanto é que temos trabalhadores doentes fisicamente e psiquicamente“, afirma Valério Vieira dos Santos, trabalhador da Vale há 29 anos, diretor e presidente do Sindicato Metabase Inconfidentes, sindicato das empresas que prestam serviço à Vale, além da própria. “Temos índices que assustaria qualquer especialista na área”, conclui.

Membro do Conselho Internacional de Mineração (ICMM), a Vale afirma em seu “Relatório de Sustentabilidade 2011” que “as comissões de saúde e segurança participam ativamente do dia a dia da Vale, com os objetivos de contribuir para a prevenção de acidentes e doenças”, seguindo as diretrizes da ICMM, na busca da “melhoria contínua da nossa saúde e o desempenho em segurança”. No entanto, a verdade é que a Vale não garante nenhum plano de saúde próprio, ao contrário do que ela afirma. Segundo Valério “é mentira! O plano dela é meio a meio, metade nós (do sindicato) que pagamos a outra metade, a empresa”. Outros contestam o próprio discurso de preocupação da corporação Vale. “Outro companheiro morreu na mina por causa da queda de uma pedra. Estou muito triste pela família deste homem, que eu conhecia. Estou muito indignado sabendo que isso é em nome do lucro, por não colocarem a segurança em primeiro lugar”, afirma um minerador da Vale no Canadá para o “Relatório de Insustentabilidade 2012”, promovido peça articulação internacional dos atingidos pela Vale.

A Sociedade do Espetáculo:

Carro chefe do marketing da empresa, a “Fundação Vale” hoje investe na cidade de Mariana-MG de diversas maneiras, seja por meio de convênios com o SESI/FIEMG atraindo peças de teatro e shows, sejam por investimentos patrimoniais como videoescolas, bibliotecas e o “Trem da Vale”. No entanto, os números confirmam que por trás das cortinas o investimento é mínimo, se comparado à arrecadação que a cidade oferece.

Mariana oferece 25% dos lucros totais da Vale. Isso em um ano comum representa R$ 9,6 bilhões anuais. No entanto, segundo Nilson Ros Charles, gerente do SESI/FIEMG Mariana-MG, o único projeto cultural da cidade que a Vale investe é a Orquestra de Mariana. Que possui um quadro de gastos anual de R$ 200 mil. A Vale entra como patrocinadora com apenas R$ 1.420 mensais, exatamente um salário de um de seus trabalhadores, o que representa R$ 15 mil anual, ou 0,00015% dos lucros que Mariana lhe dá.

“A Fundação da Vale investe menos de 1% dos rendimentos da empresa em questões sociais e ambientais na cidade onde atua”, rebate Valério, ironizando que “só nas propagandas (institucionais) da Vale, ela gasta mais do que nos investimentos que ela (efetivamente) anuncia”.

“Projetos sociais nas cidades onde a Vale atua visa o consentimento do povo, cooptação da sociedade, como maneira de atender os seus interesses imediatos no cumprimento da Licença de Operação Corretiva (LOC)”, aponta o relatório “A terceira Itabira”, da PUC-SP. Licença de Operação Corretiva nada mais é que processos direcionados para empreendimentos em operação que ainda não precederam ao licenciamento ambiental, em outras palavras, mesmo não tendo aval para tocar o projeto, a empresa atua sob licença pelo fato de demonstrar interesse na cidade a partir de ações de cunho sócio-educativo, na verdade, ações “paliativas e artificiosas”, cujo objetivo é cooptar as lideranças comunitárias e a prefeitura”, assim analisa o relatório.

Relatório na integra: http://www.pucsp.br/artecidade/mg_es/pesquisa/itabira_dissertacao.pdf

Constatando os lucros que a Vale arrecada, eles se apresentam em contradição com a pobreza das cidades em que ela se localiza, e em alguns casos, com o porte do evento que ela patrocina. Como é o caso da cidade de Brumadinho-MG, no Vale do Paraopeba a 60 km de Belo Horizonte-MG, que dá sede ao museu do “Instituto Cultural Inhotim”, entidade sem fins lucrativos que tem como patrocinadora a Vale S.A. 

Brumadinho é de IDH baixíssimo e a pobreza salta aos olhos de quem percorre o caminho para Inhotim. Considerado o “paraíso das artes” pelo Blog “Obvious, um olhar mais demorado”, “Inhotim é uma experiência incrível e um marco para os espaços artísticos do mundo todo. Conhecê-lo é uma oportunidade para mergulhar em um espaço de pura arte e natureza”. No entanto, se o olhar fosse tão demorado quanto o olhar do Novo Jornal, esse paraíso perderia seu encanto.

Em seu artigo intitulado, “Inhotim: A Grande Lavanderia Mineira”, o jornal denuncia uma

O idealizador do Inhotim, presidente do Conselho de Administração e magnata da mineiração, Bernardo Paz, e o presidente da Fundação Vale, Ricardo Piquet,

suposta relação entre o Instituto e o “Mensalão Mineiro”, onde o museu teria como função a lavagem de dinheiro. “Os valores operados anualmente neste esquema ultrapassam R$ 150 milhões. Para dar “saída” ao dinheiro recebido, Inhotim passou a adquirir enormes áreas no município de Brumadinho”, afirma.  No trecho seguinte contata que é “evidente que as operações […] de superfaturamento de promoções e simulação de patrocínio continuaram a acontecer. Hoje, no cartório de Imóveis de Brumadinho, comprovadamente, Inhotim é a maior proprietária do município. Se avaliado a preço de mercado dos imóveis adquiridos, não chega a 0,5% do valor declarado”, e o restante seria lavado, em um esquema, afirma o jornal, que envolve tanto políticos quanto empresários e publicitários que mantém relações com o Instituto.

Sobre Inhotim: http://obviousmag.org/archives/2011/09/inhotim_o_paraiso_das_artes.html
Matéria da Denúncia: http://www.novojornal.com/politica/noticia/inhotim-a-grande-lavanderia-mineira-09-07-2009.html

A Vale, via Fabiana de Castro Rocha, do Departamento de Comunicação Institucional – Gerência de Comunicação Regional-MG, foi solicitada a prestar informações e há três semanas não se posiciona a respeito das questões abordadas. 

O Dossiê Continua …

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Sobre UnderlinePV

"Sei o que faço, Amo o que faço e faço bem" Paulo Victor Fanaia é Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto-MG
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Uma resposta para Dossiê: Quanto Vale Mariana? – Parte 1

  1. Anônimo disse:

    Precisamos de mais textos desse tipo. Na expectativa do próximo,

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