Dossiê: Quanto Vale Mariana? – Parte 2


Custos para a cidade:

Segundo Nilson Ros Charles, gerente do SESI/FIEMG de Mariana, o único projeto cultural da instituição que a Vale investe é a “Orquestra de Mariana”. Que possui um quadro de gastos anual de R$ 200 mil. A Vale entra como patrocinadora com apenas R$ 1.420 mensais, exatamente um salário de um de seus trabalhadores, o que representa R$ 15 mil anual, ou 0,00015% dos lucros que Mariana lhe dá.

Mariana-MG apresenta índices altos de intoxicação, tendo atualmente apenas um hospital de grande porte, o Monsenhor Horta, e uma população flutuante, entre estudantes e trabalhadores, estimados em 15 mil.

Dos casos de doença mais recorrentes em Mariana, 60% delas são devido à falta de tratamento de água. Valério Vieira afirma, que “bancar o tratamento de água da cidade não elevaria nem em 0,5% dos custos da Vale”. A população de Mariana hoje sofre com o excesso de demanda em seu hospital, que se sobrecarrega para tentar dar conta de uma população total de 80 mil habitantes. O resultado são filas por horas na espera de um atendimento.

 Se pegarmos o ano de 2007, o ano mais produtivo pra Vale, onde o lucro total líquido foi de R$ 40 bilhões, bastaria 0,003% desse valor para se construir outro hospital do mesmo porte.

Presidente da Câmara de Mariana, Fernando Sampaio e gerente geral da Vale, Rodrigo Melo. Para comunicar, oficialmente o processo licitatório para a exploração da Mina Del Rey, 2011

Segundo o diretor do sindicato, a Vale mantém uma relação “promíscua” com os governantes da cidade, visto que eles priorizam o beneficio da Companhia Vale, em detrimento da população, como forma de recompensa aos investimentos milionários recebidos durante as campanhas eleitorais. “A Vale compra esses representantes”, lamenta Valério, como o caso do projeto da Mina Del Rey, que já foi aprovado pela Câmara, (que analisaremos mais a frente).

Estima-se que a distância mínima para que uma cidade possa conviver com tranquilidade com uma mina em exploração é de 10 km. Ainda assim, cidades que preservam essa distância são extremamente poluídas e tem seus afluentes contaminados. A distância entre Mariana e Mina Del Rey é de 1,5 km.

 

Cidades vítimas da Vale:

Há 566 km de São Luis-MA, no sul do estado do Maranhão, encontra-se o município de Açailandia-MA, onde nela se encontra o Bairro Pequiá do Norte, que vive um drama desde 1996, quando se instalaram há poucos metros do bairro cerca de 70 fornos de queima de Eucalipto que abastecem cinco empresas siderúrgicas de produção de ferro gusa, as quais a Vale é a única parceira.

              Açailandia-MA no Google Maps: http://migre.me/bRDDd

São, no total, 350 famílias que vivem nas áreas onde o ar e o rio estão contaminados por ferro em pó. Pesquisas feitas pela Universidade Federal do Maranhão e pelo Núcleo de Estudos em Medicina Tropical da Pré-Amazônia, revelam que 41,1% da população queixam-se de doenças nos pulmões e na pele.

“Aqui em casa temos sinusite, problema de garganta, dor de cabeça e problema de vista. O médico diz que a gente (está) com o pulmão todo preto. A vizinha já bateu chapa e o médico disse para sairmos daqui o mais rápido possível (…) meu marido morreu tem quatro meses. Dois meses antes o médico examinou e disse que não tinha mais jeito, que o pulmão dele tava muito cheio (de pó de ferro)”, revela a moradora do bairro em entrevista à FIDH (Movimento Mundial pelos Direitos Humanos), em 2012.

Outro caso recente foi de um menino que pisou em uma montanha de pó de ferro, que fazia barreira de acesso a uma das siderúrgicas. Ele teve suas pernas queimadas e morreu por contaminação irreversível, pouco tempo depois.

Moradores de Pequiá de Baixo: http://www.youtube.com/watch?v=RAiwjAfAkNk

Além de pneumonia, coceiras na pele, cansaço, gripe, asma e intoxicação alimentar, tem havido um aumento grave no número de abortos espontâneos, como uma das moradoras do bairro, que já passou por duas perdas de gravidez. “Segundo os médicos, nós só poderemos ter um filho quando sairmos da região, o que é impossível, pois meu marido trabalha em uma das usinas”.

O problema é que não se tratam de “assentamentos” que foram criados nas costas da mineradora. E sim, de uma mineradora que surgiu em meio a um bairro da cidade, como afirma Danilo Chammas, advogado dos moradores de Piquiá de Baixo, “o lugar já existia quando foi instalado o polo siderúrgico na região, há 25 anos”, que afirma ainda que “a convivência se tornou inviável, já que a população respira todos os dias pó de ferro misturado com carvão”.

Outro caso que salta os olhos é o país africano de Moçambique, onde, segundo o documentário sobre a história da Vale, produzida pela própria, eles tiveram que “pedir permissão aos espíritos”.

               História da Vale, institucional : http://www.youtube.com/watch?v=smna8tI_PNE

Na realidade, dados revelam uma entrada um pouco mais agressiva no país. Como afirma um morador reassentado da região. “Estamos a sofrer. A Vale veio a agravar a nossa pobreza. Vendíamos lenha, carvão e produtos alimentares. Aqui no reassentamento, hoje nós estamos sós, os desempregados e pobres, sem acesso ao mercado e sem fontes de renda”.

Essa é a realidade de cerca de 760 famílias, que foram realocadas pela Vale para uma região há 45 km de sua comunidade de origem e que hoje vivem em casas “tipo caixotes”, de 3×3 metros, sem porta e com um teto vazado, em uma área deserta. Não bastante, as casas já apresentam rachaduras e infiltrações de água, denuncia o Centro Moçambicano de Integridade Pública.

A Mina Del Rey e a saída da Vale S.A de Minas Gerais , serão o tema da continuação desta matéria.

A Vale, via Fabiana de Castro Rocha, do Departamento de Comunicação Institucional – Gerência de Comunicação Regional-MG, foi solicitada a prestar informações e há três semanas não se posiciona a respeito das questões abordadas.

O Dossiê continua …

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Sobre UnderlinePV

"Sei o que faço, Amo o que faço e faço bem" Paulo Victor Fanaia é Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto-MG
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2 respostas para Dossiê: Quanto Vale Mariana? – Parte 2

  1. Gabriel Sales disse:

    Está ficando genial essa série, Paulo. Senso de apuração e tino jornalístico aprofundados, sem mencionar a contextualização concebida de forma crítica.
    Lembrando que em Antônio Pereira, distrito de Ouro Preto, a situação está um lixo e ignorada (em verdade, todas as situações parecem estar).i

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  2. Bacana a matéria, Paulo Victor!

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